Um garoto chamado Ton | Texto em homenagem à um amigo

Um garoto chamado Ton | Texto em homenagem à um amigo

Eu me lembro como se fosse hoje..
Estava na rua andando de bicicleta, apostando corrida com meu amigo Daniel, quando um menino magrelo e metido me cutucou no ombro e disse: duvido você ganhar de mim!

Eu nem sei de onde esse menino saiu, mas depois desse dia nos tornamos inseparáveis. Descobri depois de algumas brincadeiras que seu nome era Wellington. Um nome muito difícil pra uma criança como eu, com 6 anos, saber escrever. Talvez nem ele, com 8, soubesse direito.

Descobri que ele tinha se mudado pra uma casa do outro lado da rua, que ficava bem de frente pra uma esquina. Ele tinha um cachorro chamado Bob, um cocker spaniel, e a mãe dele se chamava Regina.
Eram só os dois, mais o cachorro, vivendo naquela casa. Eu não conheci muito da história dele durante longos anos. Afinal, a gente queria aproveitar o nosso tempo brincando e não falando de assuntos chatos e difíceis.

Ele e eu tínhamos o nosso próprio mundinho, que girava em torno de Pokémons, amigos imaginários e florestas. Como ele não tinha muita imaginação, ia na onda das histórias que eu inventava. E QUE HISTÓRIAS! Uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Fora isso, era um dos poucos meninos (único, na verdade) que brincou comigo de Barbie. SIM, de Barbie! A gente passava hoooras montando a casinha pra depois inventar histórias. Antes que criem teorias: ele SEMPRE era o Ken, tá? Hahahaha. E fazia uma versão toda bad boy do boneco.

Quando o escritório do meu pai mudou de local, a gente foi “ajudar” na mudança e acabamos fazendo uma nova amizade: uma Kombi que, carinhosamente, apelidamos de Jane. Foram, sei lá, umas 4 semanas brincando dentro da Kombi enquanto os adultos cuidavam do que era importante. (Ou não, porque importante mesmo era brincar)
Ah como eu sinto falta desses dias!

Os anos foram se passando, nós fomos crescendo e descobrindo a adolescência juntos.

Foi com você que conheci “o primeiro amor”. Aquele amor bobo, de criança, inocente.

Foi em você que dei o primeiro ~beijo de verdade~. Aquele que a gente fica treinando no copo, tentando pegar a pedra de gelo e que, na verdade, não adianta de nada na hora do “vamo ver”.

Foi com você que eu andei de ônibus e de metrô pela primeira vez, sem a presença de um adulto. Lembro da gente explorando a Santa Efigênia maravilhados, pois ambos sempre fomos apaixonados por tecnologia.

Foi você que me ajudou a montar o meu primeiro computador, quando as peças que meu pai tinha comprado chegaram.

Foi com você que fui no meu primeiro show de rock, da Pitty. Até hoje, quando ouço a música Equalize, é inevitável me lembrar de você.

Foi com você que tive muitas brigas, paramos de nos falar, terminamos o namoro e depois voltamos. E terminamos. E voltamos. E terminamos.. não sei nem quantas vezes. Mas a gente nunca conseguiu ficar longe um do outro. E sem dúvida, a amizade sempre foi mais forte do que qualquer coisa.

Você já me escreveu cartas, já compusemos músicas juntos, já andamos de skate (você andava mesmo, eu tentava mas nunca consegui ), já passamos trote, já tocamos campainha e saímos correndo, já inventamos um vocabulário próprio, já brincamos de Power Rangers, já fizemos de tudo nesses quase 20 anos de amizade. Pra mim é até difícil conseguir colocar em palavras tudo isso. Impossível, na verdade.. não dá pra resumir em palavras tudo o que fomos e vivemos juntos.

Mas um dia triste chegou.. e você perdeu o seu brilho. Você deixou de ser aquele menino atrevido e cheio de pose pra se tornar uma pessoa que eu não conhecia mais. Uma pessoa que, aos poucos, foi se destruindo e talvez nem estivesse se dando conta disso. E eu não estava por perto pra te alertar, pra te ajudar. Os caminhos diferentes e a vida corrida nos distanciaram.
Eu queria ter estado lá pra você.

Hoje você está numa cama de hospital, em coma.

Eu fui te visitar e saí de lá com o coração na mão. Eu ainda tenho esperanças de que você volte, mesmo que a chance seja pequena… mesmo que já façam 34 dias que você está preso dentro de si mesmo.

Eu conversei com você e eu acredito que você tenha me ouvido. Mesmo que não tenha, eu quero acreditar que tenha. E que você esteja lutando pra se recuperar.

E se você não se recuperar, um pedaço de você sempre vai estar em mim. Porque você foi o primeiro em muitas coisas na minha vida. Porque você é o garoto do nome difícil que foi meu vizinho durante anos. Porque você era o único garoto que brincava de Barbie comigo. Porque você é você, como eu o conheci há quase 20 anos.

Eu ainda quero poder brincar com o garoto chamado Ton. 

Ton e eu