As marcas de uma vida passada | Fanfic

As marcas de uma vida passada | Fanfic

Acordou de repente de um sono perturbado, empapado de suor. Chamou por Angie, mas não obteve nenhuma resposta. Olhou pro lado e encontrou seu relógio, eram 5 da manhã.
Como não iria mais conseguir dormir, calçou seus chinelos e foi procurar por Angie no laboratório. Nada. A casa estava completamente vazia.
“Estranho, ela não costuma sair sem avisar”, pensou. Voltou para o quarto, vestiu uma roupa confortável, calçou seu tênis de corrida e saiu à sua procura pelo vilarejo.

Já era perto das 10 da manhã quando retornou e encontrou Angie cochilando no sofá. Assim que se aproximou, ela despertou.
– Desculpe-me, passei a noite testando um novo material para a Valquíria. Assim que pensei ter conseguido reconstruí-la, resolvi testar seu funcionamento perto do lago, onde eu não corresse o risco de ferir ninguém caso algo desse errado.
– E então, deu certo?
– Ainda não, mas acredito estar no caminho certo. – respondeu com um sorriso largo no rosto.
Era aquele sorriso que o impedira de sucumbir até agora, de se entregar ao desespero. Todos os dias, quando caía em sono profundo, o pesadelo se repetia. As marcas deixadas por um treinamento cruel para se tornar o melhor Soldado que o mundo já viu. “Tudo tem seu preço”, costumava pensar.
Se queria mesmo continuar a apoiar Angie em seu trabalho e conseguir encontrar o restante dos heróis que um dia fizeram parte da Overwatch, precisava se manter são.

Decidiram almoçar num restaurante que se encontrava quase nos limites do vilarejo. Adoravam aquele lugar. Fora ali que tiveram a sua primeira refeição como pessoas normais – e como um casal – , depois de tanto tempo em guerra.
Chegando lá, o imponente Soldado foi tomado por uma onda de cansaço psicológico. Estava cansado de lutar sozinho e calado contra seus monstros internos. Resolveu aproveitar que estavam num lugar tranquilo e repleto de lembranças boas para, enfim, abrir o jogo e desabafar sobre os constantes pesadelos.
– Mas depois de tanto tempo? Porque não mencionou isso antes? Eu tenho certeza de que já poderia tê-lo ajudado!
– Eu não queria tirar o seu foco da reconstrução da Valquíria. Sei o quanto ela é importante para você.
– E porque está me contando isso agora, se ainda não terminei o projeto?
– Porque eu acho que não consigo mais aguentar. Perdi minha capacidade de concentração, minhas habilidades estão fracas, não posso continuar assim. Me desculpe.
– Tudo bem, nós vamos encontrar um jeito de resolver isso. A Valquíria pode esperar.

Ele, então, se rendeu à um choro preso há anos dentro de si. Um choro de lavar a alma, de rendição. Já não conseguia mais ser forte. Todo o sofrimento pelo qual já tinha passado, foi transbordando através de suas lágrimas.
Angie apressou-se em abraçá-lo. Naquele momento ela finalmente enxergou o homem atrás da máscara do Soldado de número 76. Naquele momento ela descobriu que, por mais rígido e cruel que o treinamento havia sido, a humanidade ainda existia dentro dele.