Super Liga Feminina de Rainbow Six Siege é adiada para 2019 por falta de profissionalismo da própria organização

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A Super Liga Feminina, que era para ser um campeonato para dar visibilidade pro cenário feminino de Tom Clancy’s Rainbow Six Siege, acabou repercutindo de forma negativa.

A segunda temporada do torneio amador, que estreou no último sábado (1º), anunciou o adiamento para janeiro de 2019 por “total falta de profissionalismo”, segundo admitiu a própria organização em nota oficial neste domingo (2).

A liga sofreu boicote de quatro equipes das 11 participantes exatamente por conta da falta de transparência e comunicação por parte do staff responsável. A insatisfação se tornou pública quando ReD DevilS Guardians Imperial revelaram ter saído da Super Liga após confusões envolvendo suas respectivas partidas e, principalmente, pelo modo como os responsáveis lidaram com esses imprevistos.

Até esta madrugada, SemORG! também havia confirmado o desligamento do torneio, assim como a Medusa, que se pronunciou nesta tarde.

Com essas saídas, a Super Liga Feminina optou pelo adiamento da competição e confirmou que estará em busca de novos organizadores para assumirem o comando do torneio o quanto antes.

Enquanto isso, o cenário feminino apenas lamenta essa falta de profissionalismo. “Acredito que algumas pessoas podem perder a credibilidade que viam os campeonatos, mas logo será revertido se pensar que é um torneio amador”, disse Bela, pro player da RD. “Gerir um campeonato exige maior capacitação e discernimento que você irá lidar com inúmeras pessoas então, esteja pronto pra isso.”

O começo do fim

O protesto com a Super Liga Feminina começou com a ReD DevilS após a derrota para a Celestial Wolves por 2 a 0, na quarta partida do Dia 1 prevista para às 18h40. Na ocasião, a capitã annasight veio à público informar a saída da organização e expôs que o torneio estava uma “zona”.

“Não é a primeira vez que temos confusão porque ninguém entende o que é para fazer ou o que vai acontecer”, escreveu no comunicado. “O que se espera é que para organizar um campeonato se tenha um mínimo de planejamento PRÉVIO e parece que o campeonato está sendo todo planejado de qualquer jeito ou de última hora.”

Analista da RD, Maskara detalhou para o Nerd e Diva a confusão que se deu durante a partida. Um dos problemas foi a virada de lados no mapa, já que o regulamento previa o formato atual adotado pela Pro League de 12 rounds no total – com a troca tática ocorrendo depois de seis rodadas concluídas. Não foi o que aconteceu no jogo contra a Celestial.

Segundo o analista, a organização do torneio avisou apenas na manhã do último sábado (1º) que seriam de fato 12 rounds, mas com a virada sendo com cinco rodadas completadas – o que ia contra o próprio regulamento.

De acordo com AnaGema, o CEO responsável pela Super Liga Feminina, foi tudo um mal entendido gerado por ele mesmo. “Infelizmente nós nos perdemos absurdamente imperdoável em relação aos pontos e acabei passando diversas informações incorretas e as jogadoras ficaram loucas querendo saber qual a correta”, como divulgou em nota oficial.

“No chat lobby das partidas foi enviado a configuração de criação de partidas, e por um erro de digitação meu que não prestei atenção atrapalhou todo o campeonato”, admitiu AnaGema. Em contato com o Nerd e Diva, o CEO detalhou que “por erro digitação meu botei 5 e dei enter. Depois só fui copiando e colando!”

O mesmo problema de divergência de informações apareceu no momento de vetar os mapas, de acordo com Maskara. Segundo consta no regulamento, “a equipe com a melhor seed escolhe qual das duas equipes atuará como A na ordem de vetos”, sendo que as seeds seriam “distribuídas aleatoriamente no primeiro round”.

De acordo com o analista da ReD Devils, isso não foi cumprido em nenhum momento. “Trinta minutos antes nós já estávamos prontos (à espera da partida). E como não tinha ninguém lá para organizar, as próprias meninas começaram o veto. Depois de sete minutos o AnaGema falou ‘galera, vocês fizeram o mapa-veto errado, mas vamos deixar assim mesmo'”.

O abandono por parte da Super Liga Feminina com o times também se deu com a Guardians Imperial. A equipe enfrentaria a Rão E-Sports às 17h30 pela terceira partida do Dia 1, mas o lobby só foi criado às 17h34 – e pela própria Guardians.

“Na verdade deu umas 17h10 e não percebemos nenhuma movimentação para fazer o ban dos mapas. E nas regras aconteceria às 17h”, explicou Nandok, da Guardians, em contato com o Nerd e Diva.

“Não sabíamos a quem e aonde contatar. Conseguimos, enfim,  contato e fazer o ban depois de muitas tentativas.  Não sabíamos quais regras utilizar, pois não ficou claro em nenhum momento”, revelou a jogadora, evidenciando o mesmo problema vivido pela RD antes.

Estava estabelecido pela Super Liga Feminina que a própria organização cuidaria da criação da partida a partir da equipe de transmissão. Como o torneio não arranjou casters, foi especificado que seria de responsabilidade dos times. De acordo com AnaGema, as orgs foram avisadas horas antes das partidas sobre isso – mas que diverge com o posicionamento de algumas equipes.

Especificamente sobre Guardians x Rão, além de todo o atraso na criação do lobby, houve também um tempo de espera que passou os 15 minutos de tolerância, isso porque a GI teve problemas de estar com a line-up completa para a partida. Quando, enfim, reuniram as cinco pro players, a Rão optou seguir o regulamento e manteve o protesto para evitar qualquer imprevisto. Dessa forma, a Guardians perdeu por W.O.

Nandok exime a Rão E-Sports de qualquer culpa, já que a equipe apenas tinha as regras à favor, mas o problema mesmo foi em a GI ter que criar a partida por conta própria. “Acho curioso tomarmos W.O numa partida que nós corremos atrás pra criar e organizar. Vamos jogar outros campeonatos mais organizados mesmo”, concluiu a pro player.

Por mais que a Rão E-Sports acredite que também faltou comunicação por parte da Guardians durante o tempo de espera já com o lobby criado, o foco foi direcionado realmente para a desorganização da Super Liga, como comentou o coach Spartan1. “(A criação do lobby) teria que ser por parte dos administradores do campeonato para não haver nenhum erro como esse.”

Falta de compromisso e transparência por parte da Super Liga Feminina

A reportagem do Nerd e Diva entrou em contato com boa parte das equipes participantes, principalmente as que se pronunciaram sobre toda a polêmica envolvendo a Super Liga Feminina. A falta de transparência e organização foi o principal problema para as orgs afetadas.

Segundo apuração, o cronograma foi alterado em cima da hora. A partida da ReD DevilS, por exemplo, estava prevista para sexta-feira (30), mas passou para o dia seguinte. Todos os jogos também ocorreriam às 15h (de Brasília), mas foram remarcadas ao decorrer do sábado inteiro – o que pegou algumas organizações de surpresa.

“Eu achei que houve uma certa desordem sim! Não sei dizer ao certo se quem organizou era novo nisso ou não. Porém todos podem errar, né?”, comentou Carolzinha, pro player da Cosmo Gaming. “Agora temos que esperar e nos reorganizar para a nova data.”

Pessoas ligadas à própria Super Liga Feminina confirmaram em contato com a reportagem sobre como “a desorganização vem do staff”. De maneira anônima, foi passado como faltou melhor gerenciamento de recursos humanos com o torneio – como por exemplo na área de marketing, que não tinha como atender as artes necessárias para as rodadas seguintes.

“O que falta é comprometimento. Saber da importância desse campeonato para as garotas que estão participando”, comentou uma fonte que preferiu não ser identificada.

Houve a promessa de que a competição seria transmitida, mas no dia da estreia mesmo era uma questão ainda em aberto – por mais que a Super Liga Feminina já tivesse anunciado que Maskara, da ReD DevilS, e SepZeRa seriam os casters. Eles desistiram por falta de respaldo dos responsáveis, que não deram as informações necessárias para o trabalho.

Segundo apuração da reportagem, um terceiro narrador foi convidado e, segundo a própria organização, recusou a chamada – mas esse próprio caster admitiu que não recebeu nenhum contato.

A Super Liga Feminina havia gerado muita expectativa por conta do seu crescimento. O torneio prometeu premiação total de R$ 5 mil e havia aumentado em número de equipes participantes em comparação à season passada.

Boa vontade não faltou, algo dito até mesmo por quem se viu prejudicado por toda essa desorganização, mas o despreparo foi maior e comprometeu o que era para ser a consolidação de uma grande iniciativa para o cenário feminino.

“Acho que ele (AnaGema, CEO) percebeu as coisas erradas que fez. Que os erros sirvam como aprendizado. As meninas não importam com o dinheiro, elas querem apenas jogar… Espero que eles arrumam seus erros ano que vem”, analisou Maskara.

Contudo, ele já antecipou que a RD não participará da Super Liga Feminina em janeiro. A decisão pode ser alterada, mas esse é o pensamento agora. A ideia é focar nos treinos e esperar torneios oficiais, como o Circuito Feminino organizado pela Ubisoft, segundo conversou Bela com a reportagem.

“Acho que essa luta para termos espaço acaba chamando atenção de pessoas que sequer estão prontas para gerir um camp. A ideia foi boa, mas a desenvoltura para lidar com adversidades que um torneio apresenta foi imatura demais. Todos os oficiais que tivemos ocorreu tudo bem e todas saíram satisfeitas.”

Para a pro player, vida que segue. “Os treinos e times irão continuar até o próximo campeonato vir. E garanto que daremos nosso máximo para mostrar que o erro não foi por nossa parte.”

AnaGema admitiu que tentou dar um passo maior do que a perna. “O staff da Super Liga desde o início me avisou para contratar uma pessoa experiente em Rainbow Six, mas por conta própria achei que estava apto a organizar.”

Responsável pela injeção financeira que o campeonato obteve, ele fez questão de reforçar que permanecerá com o aporte na Super Liga e deixará a organização com outras pessoas. “Manterei os investimentos, porém não continuarei como organizador do mesmo para que um profissional tome a frente e faça um evento saudável e agradável a todas!”

Segundo o CEO, o mês de dezembro será para avaliar todos os pontos questionados pra corrigi-los até janeiro. “Estamos cientes de todas as revoltas por parte das jogadoras e iremos trabalhar dobrado para que isso jamais aconteça.”

Até lá, a luta continua por parte das minas, como reforçou Facchine, da Celestial Wolves. “Vamos passar por várias situações chatas como essa devido a não existência de muitos campeonatos femininos para poder exatamente apresentar melhor o cenário feminino, trazer mais garotas pro competitivo e ter mais oportunidades.”

“Mas não enxergo com maus olhos o adiamento. Muito pelo contrário, já que agora os times precisam se manter ativos e vão buscar outros meios também. Quem sabe agora não fique mais fácil de ver meninas em campeonatos antes frequentados apenas por times masculinos.”

Quanto a Super Liga Feminina, a pro player espera que de fato os erros sejam revistos. “Até janeiro teremos muitos times participando mais do cenário como um todo. Vamos ter mais balinhas e equipes mais bem preparadas, quem sabe times novos aparecendo. Acho que tem tudo pra ser um evento melhor. Claro, se cumprirem com o que disseram.”

Luiz Queiroga
Luiz Gustavo, 24 anos, é um jornalista especializado em Esports que escreve principalmente sobre Rainbow Six Siege para a ESL BRASIL - e um cavaleiro de Atena nas horas vagas. TOCA BON JOVI!