Review | Hellblade: Senua’s Sacrifice

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Desde 2014 a Ninja Theory, desenvolvedora de Hellblade: Senua’s Sacrifice, começou a gerar as expectativas com o “Development Diaries” (Diário de Desenvolvimento), série de vídeos para o Youtube que conta um pouco do processo de criação do jogo, desde o anúncio até o lançamento na semana passada (8 de agosto de 2017)  para PC e Playstation 4.

Hellblade: Senua’s Sacrifice é sobre psicose, sobre doenças mentais e um pouco sobre estresse pós-traumático. A protagonista do jogo Senua é uma guerreira celta que vivenciou uma tragédia: seu lar foi invadido e destruído por guerreiros vikings. Depois disso as vozes em sua cabeça apareceram e ela desenvolveu um quadro de psicose severa. Buscando acalmar “a escuridão” dentro dela, Senua vai até Helheim, o mundo dos mortos da mitologia nórdica governado por Hela e por lá desvenda mais sobre si mesma.

Vou começar dizendo que você PRECISA jogar esse jogo com fones de ouvido, o nível de imersão do jogo é absurdo já na sequência inicial, na chegada a Helheim, onde conhecemos as vozes e a introdução da história de Senua. O jogo não tem nenhuma informação na tela, nenhum tutorial, nenhuma dica de onde você deve/precisa ir, é tudo dedutível, é você quem está no controle, o que foge muito do que estamos acostumados. Os jogos mais recentes te fazem pensar o mínimo, o desafio quase não existe e tudo o que você precisa fazer é sempre explicado muito claramente e mais de uma vez, o fato de Hellblade não ser tão didático ou não ter informações na tela nem mesmo um mapinha pequenininho pra ajudar os amiguinhos pode contar como pró ou contra dependendo do tipo de jogador que você é.

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O gráfico tá lindo, o jogo me deixou de boca aberta o tempo todo com uma paisagem impressionante e as emoções da atriz, Melina Juergens, feitas pela captura de movimentos, tocam até o coração mais gelado. O uso do áudio 3D  na sonoplastia do jogo, não só na parte das vozes, mas nos passos, no vento, nas ilusões, na música, em todos os sons do jogo, contribui pra sua completa imersão na psicose de Senua.  E a história além de se aprofundar na mente de Senua e de seus problemas e motivações pessoais, abrange muito da mitologia nórdica e conta lendas dos deuses, a maioria delas em totens espalhados pelo cenário.

O combate é facílimo no normal, e tem a opção de ser deixado mais fácil e/ou mais difícil e depois que você pega o jeito não tem muito mistério. Deixar o combate mais difícil apesar de aumentar o desafio do jogo, acho que o torna frustante a um ponto de ser cansativo já que (fora os chefões) os inimigos são os mesmos do começo ao fim.

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Por se tratar de um jogo de aventura o meu lado aventureiro e acumulador ficou um pouco desapontado com a história ser tãããão linear, mas entendi que é um jogo focado na história e é nela que você deve prestar atenção ao invés de ficar procurando coisas por aí. Quanto aos quebra-cabeças do jogo, que aliás são basicamente o mesmo do começo ao fim, acabaram cansando um pouco lá pra quinta vez que você tem que fazer a mesma coisa pra abrir as portas, que é procurar ou encaixar objetos, sombras ou qualquer coisa que forme as runas desenhadas nas portas.

O jogo representa muito bem o que eu imagino que seja a psicose e em certos momentos a loucura foi tanta de vozes na minha cabeça que precisei tirar o fone pra me recompor, o que alguém doente não consegue fazer, então consigo imaginar o desespero. É uma história linear, um pouco confusa, mas memorável. Vale a pena cada centavo e cada minuto da experiência apesar das poucas falhas, sejam elas nos controles ou no desempenho do jogo.

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ATENÇÃO TEM SPOILERS SOBRE A HISTÓRIA DE HELLBLADE E O FINAL DO JOGO A PARTIR DAQUI


Olha o jogo é realmente uma obra de arte, mas me preocupou um pouco a motivação de Senua. Fiquei um pouco dividida na questão de uma mulher tão forte guerreira ser ao mesmo tempo tão frágil procurando reviver o namorado sabe?! Apesar de achar isso bem próximo da realidade, afinal toda mulher, todo ser humano, é capaz de ter os dois lados,  fiquei na dúvida se foi um bom caminho a se tomar. Dillion guia Senua pela sua loucura e a ajuda a superar momentos e memórias difíceis em certos momentos, mas em outros tive a impressão de ele ser parte da causa disso tudo, de que ele estava confortável sendo o salvador da mocinha.

Ao fim do jogo percebi que a morte de Dillion era a causa da doença e que a batalha real era de Senua com ela mesma, pra se livrar de tantos traumas diferentes causados por pessoas diferentes. Não superar a morte de Dillion levou Senua ao seu limite e a fez se perder dentro da sua própria cabeça, o que torna aceitável a composição da necessidade de um namorado na trama.

 

Fiquei me perguntando qual outro laço representaria tão forte a necessidade de apoio de alguém, já que no caso de Senua ela não tinha a mãe e o pai era um dos causadores principais do trauma. Se colocassem a Senua atravessando o inferno pra resgatar a alma de uma amiga, será que afetaria tanto o público? O amor da irmandade ou o amor fraternal teriam tanto efeito quanto o amor apaixonado de Senua por Dillion?

Ver a protagonista guerreira ser guiada pelo namorado e colocada como frágil com uma necessidade absurda da presença dele, empobreceu um tanto a história pra mim e vi que ainda temos muito o que caminhar pra termos jogos com mulheres independentes (como Horizon <3), mas mesmo assim aceito a justificativa de que o foco é a doença e a mente dela e não o mundo em volta.

Talvez eu esteja dando tanta importância pra Dillion como ela mesma o fez e se perdeu. É, talvez…

Fora todo o lance feminista, outra coisa que me deixou bem descontente foi a presença de bugs que simplesmente quebram o jogo. Eu infelizmente, achei um e tive que rejogar tudo de novo pra concluir a história, o que nem preciso dizer que gerou uma frustração que não me cabe e definitivamente derrubou o jogo uns pontos no meu ranking.

Vou colocar o vídeo do bug aqui e é bem próximo do final:


FIM DOS SPOILERS

A conclusão é que é sim um jogão e merece muita atenção e  cada minutinho que você perder nele mesmo se tiver que jogar duas vezes, o jogo está disponível na GOG, na Steam e na PSN por R$55,99, R$55,99 e R$91,90 respectivamente.

Nota: nota_1nota_1nota_1nota_1nota_2

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Designer, youtuber quando dá na telha, batgirl toda noite e durante o dia, garota gamer. Apaixonada por redes sociais, arte, escrita, comida e animais, todos com muito leite condensado, por favor.