13 Reason Why | Gatilhos, Suicídio e Porquês

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Quando a série original da Netflix adaptada do livro homônimo, 13 Reasons Why, “13 Porquês” ou “13 Razões” em tradução livre,  foi lançada e gerou um BUM nas minhas redes sociais, eu duvidei.

Na série, uma caixa de sapatos é enviada para Clay (Dylan Minnette –  O Homem nas Trevas, Goosebumps) por Hannah (Katheriine Langford – que não fez nada muito grande até agora), sua amiga e paixão platônica secreta de escola. Clay se surpreende ao ver o remetente, pois Hannah acabara de se suicidar. Dentro da caixa, há várias fitas cassete, onde a jovem lista os 13 motivos que a levaram a interromper sua vida – além de instruções para elas serem passadas entre os demais envolvidos.

Eu não sou uma pessoa exigente, digo, em conteúdo, gosto geralmente de coisas que entretêm apesar delas serem mal produzidas e possuírem falhas, se me divertiu, tá ótimo. Pelo trailer, avaliei a série como apenas mais uma história de colegial americano, tipo Scream, Pretty Little Liars, The Vampire Diaries, com um tema um pouco espiritual e terror talvez. Logo, achei todo aquele “drama das redes sociais” sobre a série, superficial. Vi gente que não tinha ideia do que era bullying, ou que sempre o praticou e/ou dizia que era “mimimi”, se doendo e sofrendo com a série como se fosse a própria Hannah, e todo esse hype, toda essa comoção, me desmotivou um tantão de ver a série.

Adiei por uns dois fins de semana, mas era tanta gente falando que a curiosidade venceu e assisti aos 2 primeiros episódios na segunda-feira (03/04), em casa, à noite. Os dias seguintes fiz 2 episódios por dia, até terminar e pra continuar fugindo do hype, esperei tudo isso pra escrever sobre a série.

ATENÇÃO O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS


Vou escrever essa crítica/relato em primeira pessoa, ao invés de tentar adivinhar o que a série faz com cada de vocês até porque isso varia muito de pessoa pra pessoa. No começo eu não me apeguei, Hannah é uma garota bonita que as pessoas pegavam no pé, grande coisa. Clay enrola e faz um mistério terrível pra ouvir as fitas.

A série funciona com um episódio pra cada razão, 7 fitas ao todo e as primeiras razões são “fracas”, a maioria das pessoas deve ter pensado um segundinho ou outro “ah, mas eu passei coisa pior”, mas não é sempre assim quando se trata de tragédias? A grama do vizinho é sempre mais verde, o seu sofrimento é sempre maior, simplesmente pelo fato de que você é a única pessoa sentindo ele desse jeito.

Depois de uma foto inocente e fora de contexto cair na mão de “meninos”, Hannah foi apontada como “a melhor bunda” da escola e isso atraiu pra ela, a liberdade dos mesmos “meninos” de transformá-la de repente em um objeto de posse de todos e de ninguém. Bryce apertando a bunda da Hannah na loja como se ela lhe pertencesse, pra mim, foi o gatilho 1.

O gatilho número 2, veio com Clay, que me representou na série, ouvindo tudo e sem poder fazer nada. Tendo que ouvir como ela se foi aos poucos… acho que foi por volta do episódio 5 que eu realmente parei de acreditar que a Hannah ia voltar pra se vingar, foi quando finalmente eu percebi que a história era tão triste que ela preferiu morrer a continuar nela.

No ponto em que a primeira “cena forte” acontece, que é quando os avisos no começo dos episódios começam a aparecer, eu não estava preparada.

Eu não esperava ver ali na tela o meu maior pesadelo acontecendo sem cortes. Claro, eu já vi cenas de estupro em filmes, nessa internet ai sem limites, na vida, todas me abalaram. Mas ver aquela garota inconsciente, frágil, ser deliberadamente abandonada por todo mundo e violada por alguém de confiança, sem forças pra reagir, me levou num nível de desconforto que foi além do físico, me causou um aperto no coração e uma sensação de impotência, de não poder fazer nada. E esse, pra mim, foi o gatilho número 3.

Não, eu nunca fui estuprada. Não sei como é o sentimento e nem quero saber, obrigada. Mas o desespero, o medo de quase ser, de não saber, a perspectiva já tira o ar da gente.

A partir daí eu parei de contar os gatilhos porque toda cena me lembrava de alguém ou algo e me fazia refletir sobre a minha vida inteira, sobre tudo que eu tinha feito até aqui, sobre como tratei as pessoas e como deixei as pessoas me tratarem, sobre as pessoas que riram de mim na escola, e sobre as pessoas de quem eu ri, principalmente.

Quando Hannah vai àquela festa. Eu chorei. Não só isso, eu soluçava, porque eu senti ela desligando… Ela saindo do corpo… e a raiva do Bryce, MEU DEUS, naquela hora eu morri um pouco com a Hannah e chorava mais porque pensava que isso acontecia de verdade, que eles não inventaram aquilo. Bryces são reais. Eu vi Bryces, eu escapei de Bryces.

Quando Hannah pede ajuda, não consegue e finalmente se mata, eu senti o esgotamento dela. Eu estava só assistindo, claro que, me colocando em todas aquelas situações como a gente costuma fazer quando vê um filme ou lê um livro, mas mesmo assim não era eu. A realidade da Hannah estava bem longe de mim e mesmo assim quando ela se matou, eu entendi o porquê. Eu entendi e fez sentido. E isso, é um perigo.

Eu já tentei “me matar” uma vez, não como Hannah, mas como Skye. E o que ela diz, “isso é o que você faz pra não se matar” fez sentido pra mim, transmitiu bem o que eu senti na época. Mas meus motivos eram outros e hoje os vejo como bobos, então minha cabeça “estava no lugar” pra assistir a série.

Quando vemos outra tragédia se formando, as armas de Tyler acumuladas ou quando Alex atira na própria cabeça, eu parei pra pensar nos sinais que ignoramos e quase fiz uma lista de amigos que precisam de atenção. Tem muita gente dando sinais de que precisa de ajuda e a gente ignora… mas acho também que a pessoa precisa passar a barreira e estar disponível pra ser ajudada, sabe?! Não tem muito o que ser feito do lado de fora, podemos no máximo estar disponíveis e oferecer ajuda, a luta real é da pessoa com ela mesma.


FIM DOS SPOILERS

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O perigo de 13 Razões é que ela desperta tantas emoções, te traz tantas memórias que me preocupa ao ponto de dizer que é melhor você não assistir, ou só assistir se tiver companhia, se estiver bem. O peso que ela deixa no coração, a tristeza e a melancolia carregadas são capazes de te derrubar. E pra quem já esteve no “fundo do poço” sei que é só um mergulho pra voltar.

Tantos gatilhos podem atingir as pessoas de maneiras diferentes e pode fazer tão bem como mal,  como vocês podem ver aqui no relato de Marielle Zum Bach em “1 Motivo para não assistir 13 Reasons Why“, a série não funciona bem com todo mundo e deve sim ser assistida e compartilhada com cuidado.

Não sei se era intenção fazer com ela voltasse mais para o público “não suicida” (desculpem o termo), mas acredito que ela serve muito bem pra alertar pais, familiares e amigos dos sinais que as pessoas emitem, dos pedidos de ajuda em silêncio, do olhar perdido e dos comportamentos que gritam socorro. Por exemplo, vejo o fato do número de ligações do CVV – Centro de Valorização da Vida ter aumentado como uma coisa positiva, as pessoas estão pedindo ajuda, elas não querem mais morrer, estão lutando com esse sentimento. E isso não é fácil.

É fato que a série moveu o mundo, mexeu no ponto que incomoda e gerou toda uma discussão importantíssima e com certeza deixou sua marca. A série é boa, os atores são bons (na medida de comparação de série adolescentes, rs), e a história te prende. Apesar de passar a sensação de estar esticada demais, até porque no livro tudo se passa numa noite e na série Clay demora uma eternidade pra ouvir todas as fitas (você consegue entender que faz muito mais sentido a série ter 13 episódios), a série conta bem a história e acredito que agrada até os fãs do tipo que “o livro é melhor que o filme”.

Assista com cuidado e se precisar de ajuda procure o CVV, ou deixa uma mensagem lá na nossa página do Facebook, nós não somos médicas… nem nada parecido, mas sabemos ouvir, se você precisar. 😉

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Designer, youtuber quando dá na telha, batgirl toda noite e durante o dia, garota gamer. Apaixonada por redes sociais, arte, escrita, comida e animais, todos com muito leite condensado, por favor.