Ela me trocou por outro

Eternal-Sunshine-of-the-Spotless-Mind

Ela me trocou por outra pessoa. Ela trocou a minha distração e a minha desatenção pela atenção de outro cara. Ela trocou os nossos dias iguais e de rotina por dias cheios de mudanças e novidades. Ela trocou nossas noites típicas por noites cheias de romance e carinho.

Ela trocou nossos inúmeros fins de semana bêbados (que eventualmente eu iria descobrir que só aconteciam porque ela estava muito chateada ou incomodada com algo que eu disse), que no fim a deixariam jogada na cama abraçada com a garrafa de vodka, por vários outros passeios que não envolviam descontentamentos, álcool e muito menos declarações entaladas na garganta.

E por falar em declarações, ela trocou a falta de declarações, as minhas reclamações sobre como ela “demonstrava demais o que sentia”, a maneira como eu a encarava frio quando ela fazia algo bonitinho só para me agradar, por alguém que é exatamente igual a ela. Alguém que demonstra, sente, fala e faz. Pois é, exatamente como ela e praticamente o meu oposto.

Ela trocou a playlist que fez com músicas que lembrava de mim (e depois apagou, quando eu caçoei daquela atitude idiota de lembrar do outro com canções de amor) por uma playlist feita pelo outro cara, que agora eles dividiam e complementavam o tempo inteiro. Ela trocou aquela vez em que ela quis ir tomar sorvete na rua do lado e eu reclamei e me recusei, porque estava com preguiça por tantos outros planos que criou, que nem envolvem mais só tomar sorvete.

Ela trocou o “por favor, pare de demonstrar o que você sente por mim” que eu pedi por “pode vir, eu aguento o tranco” que ele confirmou. Ela trocou o foco da pior noite de 2016 para ela — que foi graças à mim –, e hoje é uma das noites que ela lembra com mais carinho, porque foi quando ela conheceu o outro cara. Ela trocou as inúmeras mágoas e lágrimas por alguém que só a deixou chorar jogando Journey. Ela trocou a cama que ela dorme, o penteado que ela usa, as roupas que ela compra, o perfume que ela borrifa e o sorriso que ela abre.

Tentaram me avisar que isso aconteceria, mas eu sempre tive certeza que eu “nunca seria tão otário que nem os outros”, como certa vez eu comentei com ela. Na minha cabeça, ela me amava tanto que jamais iria fugir de mim, não importava o quanto eu a magoasse, partisse seu coração e desvalorizasse todas as vezes que ela demonstrou algo remotamente profundo em relação a mim. Mas aconteceu.

Ela trocou todo o amor e atenção que estava diretamente associado a mim para ela mesma. Sei que ela lembra de mim com certos nomes, certas imagens e, principalmente, certos amigos, mas mais do que isso, hoje eu sei que ela, como a princesa que tanto quis ser quando era criança, foi salva pelo seu tipo certo de herói. E eu… Bom, se eu fosse um príncipe, seria a Fera depois de a minha Bela desistir de mim e me abandonar: amaldiçoado pela superficialidade de uma aparência e por não conseguir colocar os sentimentos dos outros antes dos meus próprios caprichos.